2707 Brasil, Paulo José Cunha, TELEJORNALISMO EM CLOSE

TELEJORNALISMO EM CLOSE

Três vírgula catorze dezesseis

                                                          * Paulo José Cunha

Início dos anos 80, a ditadura se encaminhava para seu melancólico final. Fora um ou outro jornalista como Castellinho e sua famosa coluna que publicava o que lhe dava na telha, o que os repórteres queriam dizer os editores cuidavam de filtrar pra evitar problemas; o que se publicava era o pouco que se podia dizer; e o que se podia dizer e publicar na íntegra era tão frustrante que qualquer fiapo de informação virava manchete de jornal. E olha que nem havia mais censura. Mas havia medo. Foi assim que um dia fui escalado para cobrir uma reunião na representação em Brasília do Banco Cidade de São Paulo entre o general Golbery do Couto e Silva, recém apeado do Gabinete Civil da Presidência da República (onde reinou na condição de Cardeal Richelieu da ditadura durante mais de uma década e meia), e o ex-presidente e futuro prefeito de São Paulo, Jânio da Silva Quadros. Com dois ex deste naipe juntos, as redações se alvoroçaram. E enviaram suas equipes na esperança de alguma revelação bombástica. Enquanto os dois personagens discutiam a portas fechadas sabe-se lá o quê, repórteres de rádio faziam retrospectivas biográficas de Jânio e Golbery, e iam segurando a audiência. O momento era do tipo “expectativa no Maracanã”. Os demais jornalistas faziam xongas. Falavam mal de seus editores. Queixavam-se da preferência aos rostinhos bonitos em detrimento da competência. Papos recorrentes entre os coleguinhas, o pirão de sempre.

 

Até que, de repente, a porta se abre. O General Golbery aparece rapidamente, dá um adeuzinho e desaparece. Jânio, com seu histrionismo exagerado, seus olhos fingindo  mistério e aquele jeitão de enfado com o mundo e seus ocupantes, preparava-se para enfrentar a bateria de microfones e bloquinhos de anotações. Marchou para a escada e começou a descer enquanto repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, aos trambolhões, subiam. Bem no meio parou contido pela barreira de canetas e câmeras.    

 

         E então, o que o senhor e o general Golbery conversaram?, perguntaram  uns trezentos, corrigindo, uns oito repórteres, ao mesmo tempo.

 

Fiel ao seu estilo, falou naquele tom arrevesado que se iniciava num agudo que tocava o teto para terminar num grave retumbante, rente ao chão. Pausadamente, e sem querer dizer coisa alguma, respondeu:

 

         Dis-cu-ti-mos ô sé-xô dôs an-jos. Ê dê-fi-ni-môs um nô-vô va-lor pa-ra pi.

 

De microfone em punho, retruquei, na bucha:

 

         Além de três vírgula catorze dezesseis, a que novo valor chegaram para pi, Dr. Jânio?

 

E ele, entre surpreso e divertido:

 

         Tu fi-zés-tê um bom gi-ná-siô, gu-ri!

 

A gargalhada foi geral, os colegas me perguntando de onde havia arrancado aquele valor que muita gente aprende pra passar na prova e se esquece para sempre. Jânio não falou mais nada, aproveitou a deixa, deu as costas e sumiu.  

 

Até hoje não sei por que decorei o valor de pi. Talvez porque um dia aquela coisa me serviria para alguma coisa. Serviu.

 

Naquele dia, a ditadura nos estertores e na falta de alguma notícia melhor, um diálogo divertido mas sem conteúdo, entre um ex-presidente e uma eminência parda do regime militar, terminou se convertendo matéria de abertura do Jornal Nacional, da Rede Globo.

 

Saber o valor de pi (até hoje não sei pra que serve esse troço, aliás,  devo ter sabido um dia, mas esqueci e não pretendo aprender de novo) ajudou a emplacar a matéria de um jovem repórter no mais importante telejornal do país. Como era isso o que importava, funcionou.

 

A propósito, aproveito para informar que sei de cor a tabela de dureza de Mohs, aprendida no ginásio do Colégio Diocesano, na minha Teresina.  Começa com talco, a substância mais mole da natureza; termina com diamante, a substância mais dura que existe. Lá pelo meio tem gipsita, fluorita, feldspato e tal. Sei a ordem completa, pode perguntar que digo toda, sem errar. Nunca descobri pra que diabo decorei esse negócio. Mas está guardado. Nunca se sabe a hora em que um Jânio Quadros desses resolve aparecer por aí. 

                                                        *Paulo José Cunha é jornalista e professor    

Un comentario sobre “2707 Brasil, Paulo José Cunha, TELEJORNALISMO EM CLOSE

Responder

Por favor, inicia sesión con uno de estos métodos para publicar tu comentario:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s

Este sitio usa Akismet para reducir el spam. Aprende cómo se procesan los datos de tus comentarios .